Os gols de São Paulo 3 x 0 Bahia pela 14ª rodada do Brasileirão 2011.
Um de pênalti, feito pelo Rogério Ceni, mais um golaço do Dagoberto, dito por ele ser um dos mais bonitos feitos até então em sua carreira, e outro belíssimo gol do Lucas.
Os gols de São Paulo 3 x 0 Bahia pela 14ª rodada do Brasileirão 2011.
Um de pênalti, feito pelo Rogério Ceni, mais um golaço do Dagoberto, dito por ele ser um dos mais bonitos feitos até então em sua carreira, e outro belíssimo gol do Lucas.
Ofereço um pedaço do meu corpo antes de partir, nao quero dar a impressão de ser mal educada, estão todos congelados - os alpinistas - mas a sua carne eu ainda me recuso a comer. Da festa sobram pernas e braços e brigadeiros e bagaços que não me incomodo em reciclar, junto latas de alumínio apenas para ouvir seu tilintar, balanço os sacos de lixo para declamar o choque metálico, como poesia, versos feitos de barulho e de metal, o faço também para que não pensem que carrego cadáveres, ouço gritos de criança ou sirenes de ambulância, não sei mais diferenciar.
Mordi a língua tão forte que até agora não parou de doer, vai nascer uma afta, tenho certeza, melhor aproveitar para comer tudo o que tiver de salgado enquanto espero a erosão acontecer, é como eu sempre faço, procuro comer as coisas mais porcarias, pesadas e gordurosas que consigo encontrar até surgirem as dores estomacais que parecem fabricar ácido e corroer meu organismo, é melhor sentir falta de algo sabendo que muito dele já fez, sabe lá quando você vai sentir vontade de andar de carrosel ou comer aquele pastel de dois amores, não vale a pena prevenir a hipertensão e viver uns anos a mais sem poder jantar na rua, sem correr em casa, nua, sem o prazer do pecado da gula.
Com a boca rachada, parece que jamais vou sentir qualquer gosto novamente, a inflamação não me permite enxergar a transitoriedade da doença e o tempo que ela demora a desaparecer acaba tornando a dor uma coisa normal. De vez em quando, é verdade, penso em olhar para trás e me deixar transformar em estátua de sal.
Todos os loucos passam me olhando atravessado, não sei se é por identificação ou se, por algum motivo, eu os deixo assustados, tão pretensiosos esses homens que passam solitários, prefiro reparar nos que estão acompanhados. Com lápis e papel sustento os olhares de quem caminha no calçadão, às vezes aparentam ter mais medo do que eu de serem observados. Mas essas roupas de ginástica também não favorecem o corpo de muita gente. Definitivamente não favorecem a senhora, com essa calça lilás e blusa listrada.
Mando mensagens telepáticas para que essas pessoas levantem e saiam do meu lado, não acredito que querem puxar assunto, será que desaprendi a fazer cara de louca? Ouço a música bem alta para tentar incomodar os outros e quase estouro meus tímpanos, no jornal apareceria como a lastimável explosão de mais um bueiro, apenas os incovenientes ao meu lado teriam visto gás e fogo escapando do meu ouvido interno.
Fujo de casa, sento no parque, passo quantas horas for preciso imaginando a vida de estranhos suados, transformo jovens atletas e aposentados em minotauros, quero apenas desviar da vontade de rastejar em busca de um sentimento que procuro desesperadamente despertar em alguém. Sair de casa somente não tem me adiantado mais, porém não sei aonde encontrar a pessoa que vai abrir para mim as portas de si mesma e permitir que em seu coração eu vá me refugiar, na minha agenda telefônica que, certamente, não está, tantas as vezes que já redisquei cada um dos números gravados para confirmar que eu realmente não sou aquela pela qual alguma delas gostaria de se apaixonar.
Eu costumava pensar que era alguém montado em casco de tartaruga que me levaria para casar, estivera matando dragões com faquinhas de patê, por isso a demora, agora apenas tomo o cuidado de sentar com as pernas levantadas para que os cachorros que andam sem coleira não me tomem como parte dos bancos de cimento e resolvam levantar as patas para, em mim, urinar.
Na minha caixa de música estão todas as catástrofes que, por descuido, Pandora deixou escapar, não percebem a melodia desafinada e dançam, a noite inteira, acompanhando os movimentos da bailarina de perna quebrada, ninguém se lembra de me trazer a cola para tentar consertá-la.
O velho sem uma perna andando de muletas no fundo da sua foto, para sempre ficará sem perna, com um clique você imortalizou a sempernice do velho em código binário e, pior, colocou-o em exposição no papel de parede do seu computador, junto com suas próprias deficiências. Você nem saiu tão bem assim na foto, liberte esse pobre velho incompleto, quem sabe ele só precisa de um pouco da sua energia para competir nas paraolimpíadas.
Vendo fotos você nunca vai imaginar que aquelas pessoas já estiveram peladas na cama de uma outra - na minha cama - espalhando pelo chão de um quarto - do meu quarto - essas mesmas roupas que as deixam tão comportadas no retrato. São esses flashes puritanos que paralizam a inquieta inocência no lugar e colocam-na de volta aonde a sociedade exige que ela deva estar, nos sorrisos de cheese e abacaxi, em todos os seus dentes, tão inocentes para todos que os vêem nos álbuns, menos para mim, que há pouco ainda os sentia furiosos, arrancando enormes pedaços de carne dos meus quadris.
Você nem pode imaginar quantas foram as vezes, por essas fotos ingênuas e pintadas de xadrez, tantas perturbadas vezes, em que não aguentei ficar parada esperando suas respostas e, através de lentes, te comi, não preciso mais de garfo e faca, te como com as mãos, como em um romance.
Sempre pensei como adulto, sempre sofri como adulto, mas agora, relendo alguns diários e textos antigos, vejo páginas e mais páginas contendo apenas pensamentos de criança, que criança é essa que aparentemente eu fui e nunca conheci?
Fiquei tentando encontrar uma explicação para entender essa distância tão grande entre o que eu achava que sentia e o que eu sentia de verdade, ou o que eu deixava transparecer através de palavras coloridas com canetas hidrocor, e só consegui pensar em uma coisa: talvez a intensidade de algumas idéias e pensamentos seja tão grande (para mim e para qualquer um) que quem os têm em mente acaba por sentir-se mais maduro e mais adulto apenas pelo fato de tê-los. Uma vez a pessoa sendo arrebatada por esses sentimentos tão assustadoramente desconhecidos e não conseguindo compreender a si mesma, ela acaba achando (como eu também acho) que aquilo só pode ser um sentimento, um sofrimento, um pensamento de adulto, já que nos acostumamos a relacionar a vida adulta com conceitos de sabedoria e maturidade e compreensão de certas lógicas e fatos que uma criança jamais teria a capacidade de entender, a incompreensão, portanto, nos leva a amplificar o sofrimento. Porém, quando tudo o que parece tão grande dentro da cabeça é transcrito para o papel, podemos perceber toda a imaturidade inoculada em lágrimas para a qual estávamos cegos, lendo você consegue avaliar as próprias palavras como se fossem de outra pessoa e, bem, as outras pessoas sempre parecem tão infantis e egocêntricas, não é mesmo? Sim, elas são, e você também é, e eu também sou, mas é impossível perceber isso se não nos olharmos de fora e não nos abrirmos para a análise crítica e impiedosa de nós mesmos, nós que, infelizmente, insistimos em sofrer como adultos por coisas de criança.
| — | (Caio Fernando Abreu) |